domingo, 14 de agosto de 2011

Meu Desejado Fim

-Soube que és hispânica
- Não. Sou latina. Todos confundem.
- Por isso estou perdido em ti.
-Não deverias. E sabes bem.
- Os outros, os outros, os outros... Sempre falas dos outros.
- Porque existem. São outros. São meus, nossos desconhecidos, mas existem.
-E quanto a mim? Pensas que a conheço?
- Talvez meus desejos, meu gosto mais íntimo. Porém sabes bem que é isso.
- Não te permites abrir nada a mim além do corpo, não é?
- Não é meu corpo o que me importa e alimenta? Não é dele que vivo?
- Não precisas dizer assim. És bela! Um Boticceli!
- És galanteador e um grande perdedor de tempo! Não careces de ser assim comigo.
- Careço. És tão bela que foge-me ao poder.
- Sou frágil. Estou presa a ti até quando seu desejo permitir e tal submissão agrada-lhe o corpo, a mente, o ego.
- Falas como se eu fosse um maldito qualquer.
- Não és. Do contrário. És diferente dos outros.
- Penso que queres me dizer que estás a sentir algo por mim.
- Sinto. Claro que sinto. Uma amizade. És assim: meu amigo que vem a visitar-me exporadicamente.
- Um amigo? E em teu coração? Quem vive?
Contemplei distante a janela. Levantei-me da cama e trouxe comigo um lençol. Não a cobrir-me o corpo, mas afim de proteger-me do frio da sacada. Voltei os olhos a ela por fim:
-Em meu peito vive o desejo de ainda conseguir fazer alguma coisa certa. Fazer algo bom. Uma única vez que seja.
- Não deverias pensar assim de ti. Não sois um monstro.
- Esta não é a questão. Penso que ainda posso fazer algo limpo. Mesmo que por um momento.
- Deverias cuidar mais de si. De teus desejos particulares. Soube que andaste a fazer coisas indevidas.
- Vivo do indevido, meu querido.
- Uma amiga a viu do alto do prédio. Pensou que fosses tirar a própria vida.
- Não penses tanto no que lhe dizem os outros. O maior defeito de todos é pensar que tudo sabem ou ainda, que nos conhecem.
- E tú? Quem a conhece por inteiro?
- Ninguém. E prefiro assim - Disse sem parecer deselegante.
- Jamais te permitiste amar! Por isso pensas assim.
- Falas tanto em mim e de mim. Pesquisas, perguntas, mas até hoje o que sei de ti está resguardado entre tais paredes. Sei de teu trabalho, de tua mulher e filhos, tua casa, mas jamais soube no que estás a pensar.
- Sou interessado e desinteressante. Isto basta.
- No que pensas quando estás sozinho? Em quem pensas? Quem desejas além da tua esposa?
- Não sei. Juro a ti que não sei.
- És homem! E como todos, tens uma mulher impossível na mente! Tens aquela de quem não te atreves nem mesmo falar o nome por medo e desejo!
- Por que me tomas justamente assim?
- Curiosidade. Tenho muita.
- Jamais fostes de falar. Sempre me ouvira.
- Hoje estou diferente.
- Quero provar tais diferenças - Fez ele rolando sobre mim outra vez.
Ele me amou. Contrariando a si mesmo, demoradamente. Provou-me todos os gostos, acariciou-me todas as formas e bebeu cada gota do meu ser.
Talvez dizer a ele que conhecia meu gosto mais íntimo tenha satisfeito e inflado seu ego masculino e tal sensação encantou-me.
Quando tudo passou, ele beijou-me extasiado. Entreguei-me ao calor de tua boca como se fosse a última vez.
Busquei seu relógio no bolso da calça, abri cuidadosamente e informei:
- O horário do almoço está no fim.
- Preciso mesmo ir- me embora?
-É para teu próprio bem. Sabes que logo tua mulher comparecerá ao escritório. Não queres que ela duvide de ti. Queres?
- Não entendo cuidares de mim - Fez ele levantando-se e vestindo-se com a pressa habitual - Mas confesso que gosto.
- Vocês homens são infantis. Carecem de nós.
Ele terminou e voltou para a cama. A mesma que observo agora daqui de fora. Beijou - me e puxou-me os cabelos.
Quando saia, preparava-se para pagar-me. Recusei.
- Deves aceitar. É tua sobrevivência.
- Pense neste como um presente. Uma pequena lembrança.
- Neste caso, compre flores e beije - me mais uma vez antes de eu sair.
Beijei-o e fiz com que ele me amasse mais uma vez. Rapidamente como era de seu desejo, só para que eu me recordasse dele para sempre assim.
Agora, daqui da sacada as flores parecem ainda mais belas. O quarto, devidamente organizado, nada se assemelha ao cotidiano meu e ambos, formam a cena perfeita para meu salto rumo ao eterno falecer, no suicídio que sempre imaginei.