quarta-feira, 14 de setembro de 2011

A Música

 Ele entrou em silêncio, fazendo uso da chave reserva e sentou-se aos pés da cama cerimonioso.
Assisti seus movimentos constrangidos e medidos em igual crise de palavras, mesmo quase de costas para ele.
 Meus olhos já haviam chorado todas as lágrimas possíveis e prováveis na última semana, mas mantinham-se dramaticamente avermelhados.
Sentado alí, em posição de inferioridade, ele finalmente manifestara-se:
- É meu último pedido. Por favor eu lhe peço, insisto. Será como guardar algo de você só para mim, para nós e eu...
- Já disse-lhe que não posso! Não consigo! Sou humana, no caso de te esqueceres!
- Está bem - Fez ele abrindo a porta para ir embora.
Engoli à seco e sem acreditar em mim mesma, saltei pela cama, abracei-lhe as costas que ao meu corpo magro pareciam gigantescas e interrompi seu pensamento bruscamente, como se tentasse dizer a mim mesma, o quão fora de mim eu estava no momento de aceitar tamanho desparate.
Quando o fiz, trouxe teu rosto para perto e beijei-o.
Beijei-o e arranquei-lhe a camisa com força e volúpia, fazendo-o amar-me mais uma vez. Era um preço que ele pagaria e eu sabia não tratar-se de nenhum sacrifício, a um passo que dormir juntos era nossa rotina há tanto tempo.
Minhas insistências, típicas de mulher em fogo e seu desejo, força, falta de jeito, típicos aos homens misturavam-se mais uma vez, por tantas vezes.
Levantei-me pouco tempo depois, enquanto ele ainda dormia. Vestida somente com sua camisa branca amarrotada e acompanhada por um copo muito bem servido de whisky, trouxe uma mesinha móvel para perto da cama e riscando linha a linha, comecei o trabalho que ele tanto pedira nas últimas três semanas e eu rejeitara: escrever uma música para ele e a noiva entrarem na igreja.
Criei rimas, versos, compassos. Como diria um amigo músico: "partiturei" a canção exatamente como se devia seguindo todas as métricas desprezadas por mim.
Os lápis trabalhavam vertiginosamente, ágeis, envoltos em lágrimas compulsivas e o chacoalhar insistente do meu corpo pequeno e cansado.
Numa nuvem de fumaça, provocada por uma tragada em um dos seus cigarros mais fortes que eu fazia questão de manter em casa, o refrão finalmente saiu da mente e tomou as pautas enfadonhas.
Qualquer músico notaria que escrevi naquela noite cada pausa exatamente como um retomar de fôlego forçado.
O dia já nascia quando terminei e soprei o vestígio do grafite pela última vez naquele trabalho tão sacrificante e intenso.
Em tal momento ele também despertara: descansado, belo, lindo!
Sua barba por fazer era capaz de me atrair de forma a deitar-me com ele novamente e esquecer-me o cansaço, mas optei por resistir.
- O que pediu-me está sobre a mesa. Tomarei um banho.
Não esperei por palavra alguma, busquei o roupão e abri o registro do chuveiro. A água quente demais, inibia minhas lágrimas e reestabelecia o trabalho dos meus músculos.
Demorei-me. Tanto quanto pude para que ele pudesse ler, pensar, refletir. Tanto sobre nós dois quanto aquele casamento.
Saí do banho, troquei-me depressa e ao encontrá-lo vi lágrimas claras e reluzentes em seus olhos.
Com um certo desdém, perguntei-lhe:
- O que foi? Está ruim?
- Você sabe bem que eu não sei nada sobre essas figurinhas todas na folha, mas a letra é linda! É de emocionar qualquer homem forte.
- Que bom!
- Desculpe por pedir-lhe isso. É como um último beijo - Fez ele tentando abraçar-me.
- Não tens porque desculpar-se - Desviei o corpo - Vá tomar seu banho, faça a barba e volte para eu ajudar-lhe com o smoking.
Maquiei o rosto, os pensamentos, o coração enquanto aguardava - o. Maquiei os últimos dez anos em que permanecí a esperá-lo. A primeira vez que dormimos juntos, minha suspeita de gravidez; o começo do namoro dele com a atual noiva.
Se tem algo em que me apeguei, foi no conselho de mãe tão válido e lembrei-me exatamente das suas palavras para mim, quando tudo aquilo havia começado: "Querida, de nada funciona parecer tão independente. Seu erro maior foi permitir toda essa ligação sem compromisso. Você traz mais do que amizade por ele, do contrário, não estaria tão ligada a essa história mal escrita. Um dia você há de chorar e finalmente perceber que está perdendo a juventude e acima disso, seu amor próprio".
Nisso ele saiu: secando os cabelos, disperso e quando voltou a sí, elogiou-me:
- Você é tão bela!
Não disse nada, praticamente vesti-o e depois de um último beijo, saimos juntos para a igreja.
Alinhei os detalhes com um violinista, informei ao pianista que por conta de uma criação tão rápida e improvisada eu mesma tocaria a música de entrada dos noivos.
Sem cumprimentar amigos, sem notar a entrada dos meus pais que pareciam estar lá somente para ampararem-me, sentei-me ao piano, atei-me ao momento certo e em um Mí Menor comecei a sangrar em público, a mesma canção que sangrei a noite inteira.
Entreguei-me completamente como se estivesse tomada por um "eu lírico nada bendito" e dei vazão a emoção que guardei nos últimos tempos.
Mergulhei em toda aquela emoção, perdendo o meu controle: as teclas pareciam fazer minhas mãos doerem, os martelos calavam-me o peito, os baixos maltratavam-me os pés, mas acabou. Breve como uma canção padrão de música popular, que não dura mais de cinco minutos e nela, enterrei meu romance não proibido que permaneceu oculto na última década.

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Sou Tua

Sou ao teu lado como flor ao sabor do vento
Sou nada além de sonhos [
Convivera há tanto e por tanto com tua ausência que seu simples chegar
Assemelha-se a um milagre! Seca de mim, o sangue já pisado, o sonho destruído pelo tempo
Aquece-me em sorrisos, banhas-me em amor
Deixo-me levar
Por uma simples palavra, um toque de mãos
Que inebria-me a alma
Que faz meus desejos de amor resplandecerem
Acalma-me das lágrimas, da dor de cada músculo uma vez lançado ao chão
Tudo isso provocado pela tua não presença
A boca, seca de paixão reprimida
Os braços rígidos pelo não abraçar
Contraem-se em dor do prazer de te tocarem outra vez
Os olhos amendrontados pelo escuro
Nascem! Renascem!
Se criam em você! Por você, sebore você!
Te quero! Só meu! Te desejo, aqui, neste momento! Sou tua!"

Minha Vingança

- Preciso ir - Disse -me ele mais uma vez.
- Agora? Mesmo?
- Infelizmente sim, querida - Dissera ele enquanto tentava recompor-se mais uma vez, abotoando as roupas.
Assisti sua partida sem humor, sem compreender. Eu estava cansada.
Há muito eu desejava um encontro sozinha com ela.
Só nós duas no escuro, no breu da noite talvez.
Eu conseguia ver, num segundo de fechar de olhos o nosso acerto de contas:
Seu rosto por mim violentado com afiadas e impiedosas navalhas que em minhas mãos iam cortando-lhe a carne, seu sangue jorrando dolorido, abundante, vermelho, espesso enquanto eu riria feliz, com minha vontade mais interna satisfeita: dilacerar o rosto que competia com o meu, o sorriso dele!
A cada gemido de dor dela, eu sentiria minha vingança para cada natal comemorado no dia 23, cada reveillón comemorado dia 30!
Doeria nela! Em teu rosto de tez clara, em teu corpo milimetricamente bem tratado, os momentos em que guardei pela necessidade do anonimato, o amor dele em meu peito, os segundos infinitos em que reservei às minhas memórias mais obscuras, nossas noites juntos.
Em mim, muitas dores, traumas, seriam saciadas em seu sangue! Todas as vezes em que tive de me ver solitária na cama que sempre quisera dividir com ele, todas as vezes em que morri de ciúmes daquela aliança gritante e gigantesca nas mãos que tocavam-me.
Era do meu merecimento aquela vingança! Meu prato gelado, regado ao sangue da minha concorrente desleal, devidamente casada, dona do poder de decisão sobre a vida dele!
Renunciei demais a mim mesma! Cometendo a tolice de dizer aos vizinhos, ser casada com um verdadeiro viajante! Comprei sozinha, minha solitária e deprimida aliança de metal nobre de riqueza e pobre de amor, exatamente igual a dele para manter as aparências! Deixei de ter homens que desejei ao meu lado, tive como companhia nas noites de febre, um chá quente, feito por mim mesma. Ouvi das amigas do escritório que era casada com um homem sem rosto, que jamais aparecia para me ajudar ou buscar.
Tolerei seus momentos mais dolorosos, confortei-o até mesmo na doença dela enquanto a doença do meu corpo fora de desejo não atendido! Compreendi quando ele reclamara do sexo pobre entre eles! Quase aprendiz e lhe dei o oposto!
Meu dei! Deixei que me virasse do avesso! Jamais como um casal tradicional! Não calei a boca para vê-lo apossar-se de mim! Disse lhe que o queria dentro de mim, rígido como aço, pobre de qualquer pudor em dizer-me que me morderia e levaria o íntimo só para satisfazer-se em mim, como um delicioso algoz sexual...
Acordei do devaneio e vi a mim mesma: Largada sobre a banheira com o rosto desfiguradom cabelos no chão, navalha banhada com meu próprio sangue...
Agora ele não me desejaria mais e nem mesma eu. Quis o meu fim.

quinta-feira, 1 de setembro de 2011

Meu Querido Amigo

Fui atrás dele como um cão à procura da caça: perseguindo aromas perdidos na escuridão gélida da noite de inverno, texturas ao redor da boca me queimavam!
Depois de muito procurar, meu peito arfante denunciava a sí próprio: eu o encontrara!
Cheguei à porta da casa por volta de uma da manhã.
Entrei em silêncio e assim ele permaneceu também. O único som que ouvíamos, era das mãos dele servindo-me uma taça de vinho e mexendo vagarosamente as pedras de gelo do seu copo de whisky.
Sempre o admirara sem saber os porquês! Perdida naquele laço de amizade estreito por tantos encontros, eu o desconhecia em verdades.
Sem palavras, sem medidas, viera à mim: seduzira-me, beijara-me, tivera-me!
Minha mente presenteara-me com a plena diferença entre ele e meu marido: Sentira- o sobre mim como possuidor absoluto e claramente obsceno sobre tudo do meu ser! Mandava e comandava-me os desejos, possuía-me as vontades!
Dentre aquelas paredes do minúsculo apartamento, sentia-me a realizar finalmente o corpo como mulher, como amante!
Que nada disso venha mais tarde a servir-me de castigo a um passo que sempre tive asco da hipocrisia destes pensamentos de que nada era planejado! Aprendi enquanto lia em teus olhos tamanho desejo e comando em cada movimento meu enquanto tornava-me dele novamente e descobria que o adorava como uma divindade!
E dava a ele o meu melhor! Meu tudo! Como jamais fizera a nenhum outro, a um passo que casei-me cedo, por obrigações e imposições de meu pai e lágrimas típicas de mãe.
Infelizmente o passar das horas vinha a impedir-me de ser feliz, e quando todo o meu êxtase cedera espaço a calmaria,  notei-lhe o corpo trêmulo, a boca completamente seca e seu corpo finalmente adormecido.
E assim deixei-o finalmente: Sem querer, sem desejar e rumando ao meu castelo sem nenhum conto de fadas ou felicidade, adentrei a noite fria sozinha, mais uma vez.

domingo, 14 de agosto de 2011

Meu Desejado Fim

-Soube que és hispânica
- Não. Sou latina. Todos confundem.
- Por isso estou perdido em ti.
-Não deverias. E sabes bem.
- Os outros, os outros, os outros... Sempre falas dos outros.
- Porque existem. São outros. São meus, nossos desconhecidos, mas existem.
-E quanto a mim? Pensas que a conheço?
- Talvez meus desejos, meu gosto mais íntimo. Porém sabes bem que é isso.
- Não te permites abrir nada a mim além do corpo, não é?
- Não é meu corpo o que me importa e alimenta? Não é dele que vivo?
- Não precisas dizer assim. És bela! Um Boticceli!
- És galanteador e um grande perdedor de tempo! Não careces de ser assim comigo.
- Careço. És tão bela que foge-me ao poder.
- Sou frágil. Estou presa a ti até quando seu desejo permitir e tal submissão agrada-lhe o corpo, a mente, o ego.
- Falas como se eu fosse um maldito qualquer.
- Não és. Do contrário. És diferente dos outros.
- Penso que queres me dizer que estás a sentir algo por mim.
- Sinto. Claro que sinto. Uma amizade. És assim: meu amigo que vem a visitar-me exporadicamente.
- Um amigo? E em teu coração? Quem vive?
Contemplei distante a janela. Levantei-me da cama e trouxe comigo um lençol. Não a cobrir-me o corpo, mas afim de proteger-me do frio da sacada. Voltei os olhos a ela por fim:
-Em meu peito vive o desejo de ainda conseguir fazer alguma coisa certa. Fazer algo bom. Uma única vez que seja.
- Não deverias pensar assim de ti. Não sois um monstro.
- Esta não é a questão. Penso que ainda posso fazer algo limpo. Mesmo que por um momento.
- Deverias cuidar mais de si. De teus desejos particulares. Soube que andaste a fazer coisas indevidas.
- Vivo do indevido, meu querido.
- Uma amiga a viu do alto do prédio. Pensou que fosses tirar a própria vida.
- Não penses tanto no que lhe dizem os outros. O maior defeito de todos é pensar que tudo sabem ou ainda, que nos conhecem.
- E tú? Quem a conhece por inteiro?
- Ninguém. E prefiro assim - Disse sem parecer deselegante.
- Jamais te permitiste amar! Por isso pensas assim.
- Falas tanto em mim e de mim. Pesquisas, perguntas, mas até hoje o que sei de ti está resguardado entre tais paredes. Sei de teu trabalho, de tua mulher e filhos, tua casa, mas jamais soube no que estás a pensar.
- Sou interessado e desinteressante. Isto basta.
- No que pensas quando estás sozinho? Em quem pensas? Quem desejas além da tua esposa?
- Não sei. Juro a ti que não sei.
- És homem! E como todos, tens uma mulher impossível na mente! Tens aquela de quem não te atreves nem mesmo falar o nome por medo e desejo!
- Por que me tomas justamente assim?
- Curiosidade. Tenho muita.
- Jamais fostes de falar. Sempre me ouvira.
- Hoje estou diferente.
- Quero provar tais diferenças - Fez ele rolando sobre mim outra vez.
Ele me amou. Contrariando a si mesmo, demoradamente. Provou-me todos os gostos, acariciou-me todas as formas e bebeu cada gota do meu ser.
Talvez dizer a ele que conhecia meu gosto mais íntimo tenha satisfeito e inflado seu ego masculino e tal sensação encantou-me.
Quando tudo passou, ele beijou-me extasiado. Entreguei-me ao calor de tua boca como se fosse a última vez.
Busquei seu relógio no bolso da calça, abri cuidadosamente e informei:
- O horário do almoço está no fim.
- Preciso mesmo ir- me embora?
-É para teu próprio bem. Sabes que logo tua mulher comparecerá ao escritório. Não queres que ela duvide de ti. Queres?
- Não entendo cuidares de mim - Fez ele levantando-se e vestindo-se com a pressa habitual - Mas confesso que gosto.
- Vocês homens são infantis. Carecem de nós.
Ele terminou e voltou para a cama. A mesma que observo agora daqui de fora. Beijou - me e puxou-me os cabelos.
Quando saia, preparava-se para pagar-me. Recusei.
- Deves aceitar. É tua sobrevivência.
- Pense neste como um presente. Uma pequena lembrança.
- Neste caso, compre flores e beije - me mais uma vez antes de eu sair.
Beijei-o e fiz com que ele me amasse mais uma vez. Rapidamente como era de seu desejo, só para que eu me recordasse dele para sempre assim.
Agora, daqui da sacada as flores parecem ainda mais belas. O quarto, devidamente organizado, nada se assemelha ao cotidiano meu e ambos, formam a cena perfeita para meu salto rumo ao eterno falecer, no suicídio que sempre imaginei.