- Preciso ir - Disse -me ele mais uma vez.
- Agora? Mesmo?
- Infelizmente sim, querida - Dissera ele enquanto tentava recompor-se mais uma vez, abotoando as roupas.
Assisti sua partida sem humor, sem compreender. Eu estava cansada.
Há muito eu desejava um encontro sozinha com ela.
Só nós duas no escuro, no breu da noite talvez.
Eu conseguia ver, num segundo de fechar de olhos o nosso acerto de contas:
Seu rosto por mim violentado com afiadas e impiedosas navalhas que em minhas mãos iam cortando-lhe a carne, seu sangue jorrando dolorido, abundante, vermelho, espesso enquanto eu riria feliz, com minha vontade mais interna satisfeita: dilacerar o rosto que competia com o meu, o sorriso dele!
A cada gemido de dor dela, eu sentiria minha vingança para cada natal comemorado no dia 23, cada reveillón comemorado dia 30!
Doeria nela! Em teu rosto de tez clara, em teu corpo milimetricamente bem tratado, os momentos em que guardei pela necessidade do anonimato, o amor dele em meu peito, os segundos infinitos em que reservei às minhas memórias mais obscuras, nossas noites juntos.
Em mim, muitas dores, traumas, seriam saciadas em seu sangue! Todas as vezes em que tive de me ver solitária na cama que sempre quisera dividir com ele, todas as vezes em que morri de ciúmes daquela aliança gritante e gigantesca nas mãos que tocavam-me.
Era do meu merecimento aquela vingança! Meu prato gelado, regado ao sangue da minha concorrente desleal, devidamente casada, dona do poder de decisão sobre a vida dele!
Renunciei demais a mim mesma! Cometendo a tolice de dizer aos vizinhos, ser casada com um verdadeiro viajante! Comprei sozinha, minha solitária e deprimida aliança de metal nobre de riqueza e pobre de amor, exatamente igual a dele para manter as aparências! Deixei de ter homens que desejei ao meu lado, tive como companhia nas noites de febre, um chá quente, feito por mim mesma. Ouvi das amigas do escritório que era casada com um homem sem rosto, que jamais aparecia para me ajudar ou buscar.
Tolerei seus momentos mais dolorosos, confortei-o até mesmo na doença dela enquanto a doença do meu corpo fora de desejo não atendido! Compreendi quando ele reclamara do sexo pobre entre eles! Quase aprendiz e lhe dei o oposto!
Meu dei! Deixei que me virasse do avesso! Jamais como um casal tradicional! Não calei a boca para vê-lo apossar-se de mim! Disse lhe que o queria dentro de mim, rígido como aço, pobre de qualquer pudor em dizer-me que me morderia e levaria o íntimo só para satisfazer-se em mim, como um delicioso algoz sexual...
Acordei do devaneio e vi a mim mesma: Largada sobre a banheira com o rosto desfiguradom cabelos no chão, navalha banhada com meu próprio sangue...
Agora ele não me desejaria mais e nem mesma eu. Quis o meu fim.
Nenhum comentário:
Postar um comentário