Ele entrou em silêncio, fazendo uso da chave reserva e sentou-se aos pés da cama cerimonioso.
Assisti seus movimentos constrangidos e medidos em igual crise de palavras, mesmo quase de costas para ele.
Meus olhos já haviam chorado todas as lágrimas possíveis e prováveis na última semana, mas mantinham-se dramaticamente avermelhados.
Sentado alí, em posição de inferioridade, ele finalmente manifestara-se:
- É meu último pedido. Por favor eu lhe peço, insisto. Será como guardar algo de você só para mim, para nós e eu...
- Já disse-lhe que não posso! Não consigo! Sou humana, no caso de te esqueceres!
- Está bem - Fez ele abrindo a porta para ir embora.
Engoli à seco e sem acreditar em mim mesma, saltei pela cama, abracei-lhe as costas que ao meu corpo magro pareciam gigantescas e interrompi seu pensamento bruscamente, como se tentasse dizer a mim mesma, o quão fora de mim eu estava no momento de aceitar tamanho desparate.
Quando o fiz, trouxe teu rosto para perto e beijei-o.
Beijei-o e arranquei-lhe a camisa com força e volúpia, fazendo-o amar-me mais uma vez. Era um preço que ele pagaria e eu sabia não tratar-se de nenhum sacrifício, a um passo que dormir juntos era nossa rotina há tanto tempo.
Minhas insistências, típicas de mulher em fogo e seu desejo, força, falta de jeito, típicos aos homens misturavam-se mais uma vez, por tantas vezes.
Levantei-me pouco tempo depois, enquanto ele ainda dormia. Vestida somente com sua camisa branca amarrotada e acompanhada por um copo muito bem servido de whisky, trouxe uma mesinha móvel para perto da cama e riscando linha a linha, comecei o trabalho que ele tanto pedira nas últimas três semanas e eu rejeitara: escrever uma música para ele e a noiva entrarem na igreja.
Criei rimas, versos, compassos. Como diria um amigo músico: "partiturei" a canção exatamente como se devia seguindo todas as métricas desprezadas por mim.
Os lápis trabalhavam vertiginosamente, ágeis, envoltos em lágrimas compulsivas e o chacoalhar insistente do meu corpo pequeno e cansado.
Numa nuvem de fumaça, provocada por uma tragada em um dos seus cigarros mais fortes que eu fazia questão de manter em casa, o refrão finalmente saiu da mente e tomou as pautas enfadonhas.
Qualquer músico notaria que escrevi naquela noite cada pausa exatamente como um retomar de fôlego forçado.
O dia já nascia quando terminei e soprei o vestígio do grafite pela última vez naquele trabalho tão sacrificante e intenso.
Em tal momento ele também despertara: descansado, belo, lindo!
Sua barba por fazer era capaz de me atrair de forma a deitar-me com ele novamente e esquecer-me o cansaço, mas optei por resistir.
- O que pediu-me está sobre a mesa. Tomarei um banho.
Não esperei por palavra alguma, busquei o roupão e abri o registro do chuveiro. A água quente demais, inibia minhas lágrimas e reestabelecia o trabalho dos meus músculos.
Demorei-me. Tanto quanto pude para que ele pudesse ler, pensar, refletir. Tanto sobre nós dois quanto aquele casamento.
Saí do banho, troquei-me depressa e ao encontrá-lo vi lágrimas claras e reluzentes em seus olhos.
Com um certo desdém, perguntei-lhe:
- O que foi? Está ruim?
- Você sabe bem que eu não sei nada sobre essas figurinhas todas na folha, mas a letra é linda! É de emocionar qualquer homem forte.
- Que bom!
- Desculpe por pedir-lhe isso. É como um último beijo - Fez ele tentando abraçar-me.
- Não tens porque desculpar-se - Desviei o corpo - Vá tomar seu banho, faça a barba e volte para eu ajudar-lhe com o smoking.
Maquiei o rosto, os pensamentos, o coração enquanto aguardava - o. Maquiei os últimos dez anos em que permanecí a esperá-lo. A primeira vez que dormimos juntos, minha suspeita de gravidez; o começo do namoro dele com a atual noiva.
Se tem algo em que me apeguei, foi no conselho de mãe tão válido e lembrei-me exatamente das suas palavras para mim, quando tudo aquilo havia começado: "Querida, de nada funciona parecer tão independente. Seu erro maior foi permitir toda essa ligação sem compromisso. Você traz mais do que amizade por ele, do contrário, não estaria tão ligada a essa história mal escrita. Um dia você há de chorar e finalmente perceber que está perdendo a juventude e acima disso, seu amor próprio".
Nisso ele saiu: secando os cabelos, disperso e quando voltou a sí, elogiou-me:
- Você é tão bela!
Não disse nada, praticamente vesti-o e depois de um último beijo, saimos juntos para a igreja.
Alinhei os detalhes com um violinista, informei ao pianista que por conta de uma criação tão rápida e improvisada eu mesma tocaria a música de entrada dos noivos.
Sem cumprimentar amigos, sem notar a entrada dos meus pais que pareciam estar lá somente para ampararem-me, sentei-me ao piano, atei-me ao momento certo e em um Mí Menor comecei a sangrar em público, a mesma canção que sangrei a noite inteira.
Entreguei-me completamente como se estivesse tomada por um "eu lírico nada bendito" e dei vazão a emoção que guardei nos últimos tempos.
Mergulhei em toda aquela emoção, perdendo o meu controle: as teclas pareciam fazer minhas mãos doerem, os martelos calavam-me o peito, os baixos maltratavam-me os pés, mas acabou. Breve como uma canção padrão de música popular, que não dura mais de cinco minutos e nela, enterrei meu romance não proibido que permaneceu oculto na última década.
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